Conhecer a Deus

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Conhecer a Deus

Uma das grandes questões da história do pensamento ocidental, foi a questão do conhecimento. Homens como Descartes, David Hume, Kant, e tanto os outros, se preocuparam com a “episteme”; isto é, os estudos que filosofia chama de “teoria do conhecimento” ou “epistemologia”. A busca do conhecimento entre os pensadores, sempre esteve atrelada a busca pela verdade.

Sócrates dizia que, segundo o Oráculo de Delfos, o homem tinha que se conhecer a si mesmo para alcançar a verdade. Diferente de Sócrates, Agostinho buscava a verdade no conhecimento de Deus, já que, o homem, era conhecido de Deus, disse ele: “Conhecer-te, ó conhecedor de mim, conhecer-te tal como sou por ti conhecido“. Paulo admite o conhecimento de si, mas almejava conhecer a Deus inteiramente: “Agora conheço em parte, mas depois conhecerei plenamente, assim como também sou plenamente conhecido”. (1Co 13-12b).

A vida consiste em conhecer a Deus profundamente; conhecer a si mesmo, como propôs Sócrates, deve implicar em conhecer, também, o conhecedor e feitor do homem. Conhecer o Deus que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Conhecer o Deus que, para alguns, é desconhecido. Tal como Paulo disse aos filósofos no Areopago em Atenas “AO DEUS DESCONHECIDO. Esse, pois, que vós honrais, não o conhecendo, é o que eu vos anuncio” (Atos 17:23b) Esse Deus é Jesus. Nas palavras João “E a vida eterna é esta: que te conheçam, a ti só, por único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, a quem enviaste.” (Jo 17:3).

– Josias Silva

Mantendo a essência

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É bem comum de nós, por vezes, nos indignar por algo, e nossa reação ser de revolta e de ataque ao que nos revolta. Isso é normal. Todos somos assim. Mas todo cuidado é pouco.

O que é perigoso é que nós temos natureza má, todos nós, no fundo, temos intrinsecamente o ranço do Pecado Original de Adão. Para nos perdoar e nos redimir dessa natureza, Cristo veio para nos fazer uma nova criatura e diminuir (pois ainda pecamos nesse corpo) os efeitos noéticos do pecados; isto é, os efeitos gerados que afeta nossa mente, nossa consciência. Por isso a advertência “Irai-vos, e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira.” Efésios 4:26

Mas, uma vez que estamos em Cristo, como diz Paulo aos Colossenses – 3: 1-3 “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus.

Deixe-me contar-lhes uma história.

“Um homem viu quando uma cobra estava morrendo queimada e decidiu tirá-la do fogo, mas quando o fez, a cobra o picou. Pela reação de dor, o homem o soltou e o animal caiu de novo no fogo e estava se queimando de novo. O homem tentou tirá-la novamente e novamente a cobra o picou. Alguém que estava observando se aproximou do homem e lhe disse:
– Desculpe, mas você é teimoso! Não entende que todas as vezes que tentar tirá-la do fogo vai pica-lo?
O homem respondeu:
– a natureza da cobra é picar, e isto não vai mudar a minha, que é ajudar.
Então, com a ajuda de um pedaço de ferro, o homem tirou a cobra do fogo e salvou sua vida.
Não mude sua natureza se alguém te faz algum mal, não perca sua essência; apenas tome precauções. Alguns perseguem a felicidade, outros a criam. Preocupe-se mais com sua consciência do que com sua reputação. Porque a tua consciência é o que você é, e sua reputação é o que os outros pensam de ti. E o que os outros pensam, não é o teu problema… é problema deles!”

Enfim, não mudemos a nossa natureza por causa do defeito dos outros. Quem é bom, é bom mesmo em meio a maldade; quem é ruim é ruim mesmo em meio a bondade. Não façamos o mal com a desculpa de querer fazer o bem. Não odiemos com a desculpa de que nos odeiam. Como diz Rubem Alves “No fundo nos sentimos os melhores” com isso, nossos erros sempre são justificados por que nos sentimos os bonzinhos.

Apesar de nossa natureza pecaminosa, hoje, se estamos em Cristo uma nova criatura somos. Paulo diz aos crentes de Filipos “Concluindo, caros irmãos, absolutamente tudo o que for verdadeiro, tudo o que for honesto, tudo o que for justo, tudo o que for puro, tudo o que for amável, tudo o que for de boa fama, se houver algo de excelente ou digno de louvor, nisso pensai” (Fp 4:8). Não cansemos de lutar com as armas do bem. Difícil? Sim (eu que o diga, pois sou impetuoso), mas quem disse que ser cristão é fácil?

Que Deus mantenha nossa essência nEle, pois a nossa – é toda corrompida.

– Josias Silva

A Cruz e o Missionário

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A Cruz, hoje, é quase que universalmente reconhecida como o símbolo do cristianismo, religião que goza de destaque em meio às demais religiões. O cristianismo tornou-se a maior religião do mundo seguida pelo islamismo e o judaísmo. Falar em Cruz na atualidade, logo nos remete aos cristãos. Não obstante, nem sempre foi assim, a Cruz entre os séculos II a.C a IV d.C era símbolo de vergonha nacional. Símbolo de vergonha a família, o nome Cruz, era tido como um palavrão, um escárnio, devendo estar longe até das crianças, de tão terrível e tenebrosa que era a morte de Cruz.

E foi na Cruz que Jesus morreu. Na Cruz que teve sua imerecida, inescrupulosa e indigna sentença, sentença essa que viria abalar o mundo como uma nova religião dos dissidentes judaicos que iriam permear toda a História Medieval e Moderna da Civilização Ocidental. Mas, é importante dizer que, Cristo não veio trazer uma nova religião, mas sim as Boas Novas de vida; ou seja, veio dar uma nova chance para o homem que, por sua ascendência adâmica, não pode livrar-se do pecado sozinho. Ele precisa de um Salvador. E esse Salvador é Jesus Cristo, o Filho do Deus vivo – como disse Pedro.

Falando ainda da Cruz, Lutero, o reformador da Igreja no séc. XVI, falava a cerca da “Teologia da Cruz” em contra posição da “Teologia da Glória“. A Teologia da Glória estava centrada nas vaidades dos homens, riquezas, honras, status, e tudo que o mundo oferece como “gloria”. A Teologia da Cruz, ao contrário, oferecia a volta a Cristo em sua essência, humildade, amor, sofrimento e renúncia de si mesmo, dos pecados e de suas vaidades para seguir o exemplo de Cristo. Lutero de baseava em Paulo para sua teologia “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2:5-8).

Viver segundo a Cruz é a negar-se a si mesmo por amor a Cristo, isto implica em ter que amar os inimigos, perdoar os traidores e sempre pagar o mal com o bem. John Stott diz:

“A cruz não somente invoca a nossa adoração (de modo que desfrutamos uma celebração contínua e eucarística), e nos capacita a desenvolver uma autoestima equilibrada (de modo que aprendemos tanto a compreender a nós mesmos como a dar de nós mesmos), mas ela também dirige a nossa conduta em relação com os outros, incluindo-se os nossos inimigos.” 

Hoje, tal qual Paulo e Lutero, o missionário, que vive nos valados e nos recônditos do mundo é convidado também a seguir o Cristo da Cruz, sofrendo pelo evangelho, abrindo mão de si pelo outro, abrindo mão, às vezes, até do seu conforto por amor às almas. Amor às vidas. Amor ao pecador. O missionário é o agente do Reino de Jesus, propagador da Cruz de Cristo que tem poder para tirar o pecado do mundo, mudar o homem em sua família, na sociedade e no mundo ainda levá-lo para o céu.

O missionário é aquele que sabe levantar as mãos para adorar a Deus, mas também sabe abaixa-las para ajudar o caído e o necessitado, curando suas feridas e libertando-o de toda prisão. O missionário (para usar um clichê que está nas redes sociais) é chamado para “ser serviço e não para ser visto“. O missionário padece por amor ao Senhor, tal como os cristãos dos primeiros séculos da igreja, que tinham prazer no sofrimento, que iam para as arenas morrerem na boca das feras, que eram martirizados pela causa de Jesus, pois imitavam o Cristo da Cruz e não o que este assentado sobre o trono. O missionário é aquele que ama Cruz e dá toda a glória a Cristo, e sua “fama” é a de tornar Jesus conhecido pelo que prega e, acima de tudo, pelo que vive. O missionário, como John Wesley disse, faz o mundo ser o seu púlpito, em suas palavras “O mundo é minha paróquia”.

Todavia, que fique claro e evidente, que Missões é algo que todos nós, cristãos, devemos estar envolvidos, cada um a sua maneira, enviando, contribuindo, ajudando e indo. Alias, é  interessante ressaltar que o “ide” de Marcos 16:15 está no imperativo nas traduções em português, mas no original grego, esta no gerúndio, é um presente contínuo; isto é (indo) por todo mundo pregando o evangelho. Ou seja, sempre, sem parar, sem cessar, constantemente levando a palavra de Deus ao mundo.

Que o Senhor suscite dentre nós, homens e mulheres que queiram deixar a gloria humana para proclamarem o Evangelho de Cruz que é loucura para o mundo, mas salvação e poder de Deus todos aqueles que creem, como nos diz Paulo o Apóstolo da Cruz. Amém!

Josias Silva

Simplesmente Deus

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Simplesmente Deus

Os céus declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos. (Salmo 19.1)

Todas as palavras que procurarmos para descrever Deus são inócuas e inefáveis para expressá-lo. Quando Moisés estava diante de Deus e perguntou a Ele (Deus) em nome de que deus teria que falar a resposta foi o Deus”Eu Sou”; mas como assim, “Eu Sou”? Sim,”Eu Sou” – ou seja, não há predicados que o expresse, se dissermos que Ele é o Deus de guerra, sim, Ele o é; se dissermos que Ele é o Deus do fogo, sim, Ele o é; da água, das plantas, dos animais, do homem e de todo o universo. Sim, Ele é tudo e além do tudo. Por isso sua resposta: “Eu Sou”. Ele se basta.

Entre os judeus, inclusive, era proibido dizer o verbo “ser” na primeira pessoa, por reverência ao Grande “Eu sou” – assim, não se diria “Eu sou Moisés”, mas “Eu Moisés”. O verbo “ser” para expressar o Deus Altíssimo era algo como que, a única forma,  antropomorficamente falando, que parece chegar próximo do “entendimento” humano de quem é Deus. Ele, simplesmente é. Logo, Deus não estaria ali ou aqui ou acolá, pois, Ele é! Deus foge da ideia de espaço e tempo. A palavra para se referir a Ele era um tetragrama יהוה (YHVH) e era impronunciável. Palavra esta que depois veio a ser chamada de Yhave ou na forma latinizada: Jeová.

A existência Deus transcende a própria existência, pois “existir” é feitura dEle, o tempo, isto é, o “chronos” não o detém, o espaço não o detém, alguns teólogos dizem que Ele participa do tempo “kairos” que, em grego, seria (o tempo exato) ou (o tempo em sua plenitude), mas a definição teria problemas também, pois Deus não se pode definir, nem mensurar. Rubem Alves diz algo sobre isso:

“Deus é como o vento. Sentimos na pele quando ele passa, ouvimos a sua música nas folhas das árvores e o seu assobio nas gretas das portas. Mas não sabemos de onde vem e nem para onde vai. Na flauta o vento se transforma em melodia. Mas não é possível engarrafá-lo. Mas as religiões tentam engarrafá-lo em lugares fechados a que eles dão o nome de ‘casa de Deus’. Mas se Deus mora numa casa estará ele ausente do resto do mundo? Vento engarrafado não sopra... ”

Toda definição humana seria volátil, toda ideia que temos dEle, por mais teológica ou poética que seja, se desfaz no momento que a concebemos, e passa a não ser mais Ele, pois Deus não se esgota. Deus não se pode esquadrinhar aos ditames antropológicos, teo-filosóficos ou meta-linguísticos. Como Deus não é um objeto de conhecimento empírico, não temos qualquer conceito de fim último dEle. Em conseqüência, Deus não é objeto de
conhecimento científico, e aquilo que chamamos teologia natural não passa de especulação, pode até contê-lo, mas não o exauri e nem o define. Se definisse não seria Deus. A razão o (re)conhece, mas não pode conhecê-lo em sua essência e infinitude. Por isso é inútil os ateus refutá-lo. Deus perpassa a razão.

Deus é o tudo e o nada, Deus é o Ser e o não-ser. Deus é. E “ser”, está para além de nosso intelecto. Ele é o que Parmênides disse: ex nihilo nihil fit, ou seja, do nada fez tudo existir dizendo “fiat lux” (haja luz!) e das trevas veio a existir luz. Ele é o Motor Imóvel de Aristóteles, que move todas as coisas sem ser movido por nada. Ele é o Logos de Heráclito, e consequentemente de João – o princípio primeiro – de todas as coisas. Antes que o existir viesse a existir Ele o era. Ele é o próprio (Ser)  – ser significa estar em tudo, em todos seres e em todos lugares.

Por isso David disse no Salmos 139:8-9 “Se eu subir aos céus, lá estás; se eu fizer a minha cama na sepultura, também lá estás. Se eu subir com as asas da alvorada e morar na extremidade do mar (…)” lá Ele também estará. Paul Tilich em sua quaestio Dei – (questão de Deus) – diz que a ideia de “profundezas” possui alguma uma “ideia” de Deus “O  nome da profundidade inexaurível e do  fundamento infinito de todo é Deus. A palavra Deus expressa essas profundezas. (…) Quem possui alguma ideia das profundezas possui alguma ideia de Deus

Isaías o vê nas alturas, nas constelações de maneira inteiramente divina outorgando-lhe o poder que lhe é devido como Criador: “Levantai ao alto os olhos e vede. Quem criou estas coisas? Aquele que faz sair o seu exército de estrelas, todas bem contadas, as quais ele chama pelo nome; por ser ele grande em força e forte em poder, nem uma só vem a faltar”. (Isaías 40.26).

Agostinho em uma belíssima oração o chama de Deus Beleza, Deus Felicidade, Deus Sabedoria, Deus Bondade. Deixemos que o próprio fale:

Deus Verdade, em quem, por quem e mediante quem é verdadeiro tudo o que é verdadeiro. Deus Sabedoria, em quem, por quem e mediante quem têm sabedoria todos os que sabem. Deus, verdadeira e suprema Vida, em quem, por quem e mediante quem tem vida tudo o que goza de vida verdadeira e plena. Deus Felicidade, em quem, por quem e mediante quem são felizes todos os seres que gozam de felicidade. Deus Bondade e Beleza, em quem, por quem e mediante quem é bom e belo tudo o que tem bondade e beleza. Deus Luz inteligível, em quem, por quem e mediante quem tem brilho inteligível tudo o que brilha com inteligência. Deus, cujo reino é o mundo inteiro, a quem o sentido não percebe. Deus, de cujo reino procede também a lei para os reinos da terra; Deus…

Ele é Deus ontem, agora, amanhã e sempre. Mas o “sempre” ainda torna-se efêmero anti a dimensão da sua eternidade. Ele é o Todo-Poderoso. Ele é o que mandou seu Filho Jesus, para que, em parte viéssemos conhecê-lo como diz Paulo “porque, em parte conhecemos, e em parte profetizamos; mas, quando vier o que é perfeito, então o que é em parte será aniquilado. (1 Co 13: 9-10) – hoje, com todas nossas limitações o conhecemos pela sua revelação salvífica em Cristo, seu amor, sua graça e propósito para toda a humanidade. Este é o nosso Deus, o grande Eu Sou. Deus Único. Deus Absoluto. Deus, simplesmente, Deus.

(Josias Silva)

 

 

O “jugo” de Jesus

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O “jugo” de Jesus

“Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei” ( Mt 11:28 ).

Havia na época de Jesus várias escolas rabinicas, dentre elas, as mais famosas eram as de Hillel e Shammai, e, cada uma delas tinham suas interpretações da Tora; isto é, a Lei de Moséis. Muitas das interpretações dessas leis eram demasiadas pesadas e de difícil cumprimento, os escribas e os fariseus (casta judaica que discutiam a cerca dos mandamentos mosaicos, e acrescentavam ainda a tradição oral, frequentemente chamados de “hipócritas” por Jesus), eram os responsáveis por “salvaguardar” essas regras para que ninguém as transgredissem, estando sob a autoridade do Sinedrio – (conselho tribunal da religião de Israel).

Jesus adverte os seus discípulos e a todos que o ouviam, que a doutrina dos que se assentavam no lugar de Moisés – escribas e fariseus -, consistia somente em mandamentos e regras ‘pesadas’ que nem mesmo os seus idealizadores cumpriam. “Pois atam fardos pesados e difíceis de suportar, e os põem aos ombros dos homens; eles, porém, nem com o dedo querem movê-los” ( Mt 23:4 ).

Para estes, – que viviam sob o “jugo” desses religiosos, que faziam da religião um meio de sobrevivência e a hipocrisia de serem os “guardiões” dos ditames de Lei de Moisés, estando com os corações podres voltado aos seus interesses (Cf. Mt 23:27-32) -, Jesus oferecia um novo jugo. Cabe salientar que o “jugo” do grego Ζυγός usado por Jesus de maneira metafórica, era o que se usava em cima dos bois, conhecido também como “canga” que se põe sobre o pobre bicho que sofre levando fardos, para manter a sobrevivência de seu dono, que o usa para um trabalho que podia se equiparar a escravidão. Aliás a palavra Ζυγός também pode ser usada para “escravo” 

Mas, a palvra “jugo” na realidade, também pode ser usada como um conjunto de ensinamentos, ou seja, quando Jesus diz “meu jugo é suave” está dizendo como um Rabino com sua própria escola de interpretação da Lei, por isso o chamavam de Mestre “Rabi”; daí a forma de Jesus ensinar dizendo aos seus discípulos “Tomai sobre vós o meu ‘jugo’, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas.” (Mt 11:29).

Lembrando que esse povo (e aqui digo “povo” de maneira superficial e genérica, pois as classes sociais eram  bem mistas), já sofria por questões socio-econômicas dada a opressão do governo romano que deixava a grande maioria em condições de flagelo. Jesus era a opção para um povo excluído da sociedade que, mesmo pagando os tributos ao Estado romano e os dízimos do templo, como não faziam parte do topo das camadas hierárquicas, eram oprimidos por seus colonos e pela religião de um Deus iracundo, que exigia perfeição, muito distante do Deus-Abba (paizinho) que Jesus anunciava.

O Deus de Jesus, anunciado com a vinda do seu Reino, chamava os cansados e oprimidos, amava o mais vil pecador,  justificava o publicano, a prostituta, o samaritano (inimigo dos judeus) e condenava os da religião do aparente. Nas palavras de R. Petter:

O Deus de Jesus assume o humano a tal ponto que liberta o homem da exigência de ser como Deus. Deus contém em si, agora o máximo de humanidade. Deus encontra-se imerso no humano. O ‘Reino’ de Jesus não requer seres excepcionais, melhores que o ‘resto dos homens’, que se preocupam em ser por eles contaminados.

Em suma, Jesus quer trocar nossas cargas, nossos fardos, dando-nos uma nova interpretação das Escrituras oposto do que a religião da “perfeição” meramente humana impõe. Nos dando alívio e liberdade nEle, para que percebamos que servir a Deus não é dor, não é obrigação, mas antes, é prazer e descanso para a alma. Por mais que haja esforços e por vezes sofrimentos, Ele nos convida a tomar sobre nós o Seu jugo que é que leve, o mesmo não acrescenta dores, não apriona, mas liberta. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve. (Mt 11:30). Diz o Mestre dos mestres.

Aleluia!

(Josias Silva)

Fazedores de deuses

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Fazedores de deuses

Um deus moldado às minhas convivências é quase um demiurgo ou um gênio da lâmpada. Um deus moldado aos meus gostos, quando peco, digo que ele é bondoso, quando o outro peca, digo que ele um vingador. Um deus moldado às minhas (só minhas necessidades) – é quase meu servo; quase meu escravo; por isso é normal os fazedores desses deuses terem posturas sagradas e intocáveis como se fossem o próprio Deus.

Um deus moldado às minhas iras, revoltas e rancores, sempre vou achar que ele está ao meu lado, não do lado do outro; assim, vê-lo como meu defensor e destruidor dos meus opositores é típico dos fazedores de deuses. Na antiguidade, a exemplo do Egito, os deuses eram feitos das necessidades, o Rio Nilo, que trazia colheita, era deus, os animais que eram alimentos, eram deuses; assim, deus era conforme as necessidades.

Um deus assim, da vazão a um Ludwig Feuerbach dizer que “Deus” foi feito pelo homem e não o homem por Ele. Um deus assim, realmente temos que concordar com o ateísmo de Nietzsche quando disse “Deus está morto”.Tenho me tornado ateu também desses deuses e fazedores de deus; divindades que condenam quem não se molda aos meus pensamentos, mas que me perdoa mesmo nos mais dos vis pecados – não é Deus -, mas o protótipo de minhas convivências.

Jesus, o Cristo, é o Deus imparcial e ama a todos de igual maneira, e, a seu tempo, e não a meu gosto (gosto maldoso, diga-se de passagem), julgará a cada um segundo suas obras. Hoje, sendo eu ainda pecador, apregoar um deus que vive castigando o humano quando este erra, posso ser o primeiro da fila; pois se fomos amados, não é porque somos bons, mas porque sua misericórdia é infinita.

A esse Deus sim, sou crente, sou teísta praticante e militante, o Deus de amor que nos trata como filhos, mesmo sem merecer, que quer que nos tornemos mais parecidos com Ele a cada dia. A esse Deus-homem da Cruz que sou seguidor, mais ainda como cordeiro, do que como leão, mais ainda como o crucificado de que como o assentado sobre o trono.

Nas palavras do teólogo A.Garcia Rubio:

Com efeito, a cruz de Jesus está a exigir uma profunda revisão das imagens que
fazemos de Deus. A fé cristã, enraizada no Novo Testamento, confessa que, nesse Jesus que vive o messianismo de serviço e acaba crucificado, encontramos o próprio Deus feito homem. Confessa também que esse Jesus é a revelação de Deus, numa existência humana, ou melhor, é o próprio Deus feito realmente limitação humana […] Mas é uma revelação, convém repetir, que nos deixa muito perplexos […] o Deus revelado na cruz de Jesus não pode ser considerado impassível e apático, no sentido estóico. Ao contrário, é um Deus-Ágape que se faz homem, e homem servidor […] [1]

Paulo também nos chama atenção a esse esse Deus-homem para que o imitemos: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2:5-8)

O Deus-humano é a chance de eu ser perdoado, e não me tornar juiz quanto ao pecado do outro (e isso não significa concordar com o pecado); deixe que Ele, a seu tempo, castigue a cada um segundo suas obras e oremos para que não estejamos inclusos (lembrando que nosso coração vale mais do que as obras, não sendo assim, fácil descambamos para o farisaísmo).

O Deus Jesus é oportunidade de sermos sarados, e nos livrar dos deuses do nós mesmos, de nos esvaziarmos de nós, da idolatria do EU, que nos faz deuses e fazedores de deuses ao nosso bel prazer.

[Josias Silva]

[1] Alfonso Garcia Rubio. A Caminho da Maturidade na Experiência de Deus (São Paulo: Paulinas, 2008) p.45-47

Mentiras globais

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Vivemos num mundo de mentiras globalizadas, onde, dizer a verdade, pode se tornar um ato subversivo de rebeldia. Quem se propõe, no mínimo que seja, ser verdadeiro, é como se estivesse num campo de fugitivos correndo em uma direção, onde, quem correr na direção contrária para lutar, é quem parece fugir.

José Saramago diz “As pessoas gostam de ser convencidas de que dois mais dois são cinco. E se aparece alguém a dizer que são quatro, é um herege. Ou um desmancha-prazeres.

Há “felicidades” que são construídas na mentira, na ilusão, pois ver as coisas como realmente são, levaria à frustração. Nietzsche assevera que “Por vezes as pessoas não querem ouvir a verdade, porque não desejam que as suas ilusões sejam destruídas.”

Pessoas assim, não enxergam o mundo além de si, normalmente não conseguem conviver com seu o oposto e com opiniões diferentes, pois seu umbigo é o centro do universo e suas ideias são absolutas.

Quem vive no mundo solitário do Pequeno Príncipe ao se ver no mundo real e verdadeiro, sofre por gostar de viver na terra do seu próprio EU; o coletivo só lhe favorece se esses disserem o que gosta de ouvir para alimentar seu Narciso. O ditado diz “Em terra de cegos quem tem um olho é rei” então, encontrar alguém com dois olhos, é uma ameaça às ilusões do pseudo rei.

Há quem viva de doces ilusões, aliás, o mundo gosta de mentiras, muitas relações nesse mundo, só duram se forem “politicamente corretas”, nesse mundo de mentiras, como já dito a cima, dizer a verdade é um ato revolucionário. Outra vez Saramago diz:“O tempo das verdades plurais acabou. Vivemos no tempo da mentira universal. Nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira, todos os dias.

Cristo diz “E conhecerei a verdade, e a verdade vos libertará“(Jo 8.32). Como um pássaro preso em uma gaiola, elas – (as gaiolas) – podem ser a ilusória segurança, a verdade pode libertar, mas a ilusão o deixa seguro na gaiola. Sendo assim, quem se atreve a solta-lo é tido como o maldoso.

A mentira aprisiona; a verdade liberta, mas, ser livre, pode não combinar com quem gosta do conforto das gaiolas.

– Josias Silva