Fazedores de deuses

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Fazedores de deuses

Um deus moldado às minhas convivências é quase um demiurgo ou um gênio da lâmpada. Um deus moldado aos meus gostos, quando peco, digo que ele é bondoso, quando o outro peca, digo que ele um vingador. Um deus moldado às minhas (só minhas necessidades) – é quase meu servo; quase meu escravo; por isso é normal os fazedores desses deuses terem posturas sagradas e intocáveis como se fossem o próprio Deus.

Um deus moldado às minhas iras, revoltas e rancores, sempre vou achar que ele está ao meu lado, não do lado do outro; assim, vê-lo como meu defensor e destruidor dos meus opositores é típico dos fazedores de deuses. Na antiguidade, a exemplo do Egito, os deuses eram feitos das necessidades, o Rio Nilo, que trazia colheita, era deus, os animais que eram alimentos, eram deuses; assim, deus era conforme as necessidades.

Um deus assim, da vazão a um Ludwig Feuerbach dizer que “Deus” foi feito pelo homem e não o homem por Ele. Um deus assim, realmente temos que concordar com o ateísmo de Nietzsche quando disse “Deus está morto”.Tenho me tornado ateu também desses deuses e fazedores de deus; divindades que condenam quem não se molda aos meus pensamentos, mas que me perdoa mesmo nos mais dos vis pecados – não é Deus -, mas o protótipo de minhas convivências.

Jesus, o Cristo, é o Deus imparcial e ama a todos de igual maneira, e, a seu tempo, e não a meu gosto (gosto maldoso, diga-se de passagem), julgará a cada um segundo suas obras. Hoje, sendo eu ainda pecador, apregoar um deus que vive castigando o humano quando este erra, posso ser o primeiro da fila; pois se fomos amados, não é porque somos bons, mas porque sua misericórdia é infinita.

A esse Deus sim, sou crente, sou teísta praticante e militante, o Deus de amor que nos trata como filhos, mesmo sem merecer, que quer que nos tornemos mais parecidos com Ele a cada dia. A esse Deus-homem da Cruz que sou seguidor, mais ainda como cordeiro, do que como leão, mais ainda como o crucificado de que como o assentado sobre o trono.

Nas palavras do teólogo A.Garcia Rubio:

Com efeito, a cruz de Jesus está a exigir uma profunda revisão das imagens que
fazemos de Deus. A fé cristã, enraizada no Novo Testamento, confessa que, nesse Jesus que vive o messianismo de serviço e acaba crucificado, encontramos o próprio Deus feito homem. Confessa também que esse Jesus é a revelação de Deus, numa existência humana, ou melhor, é o próprio Deus feito realmente limitação humana […] Mas é uma revelação, convém repetir, que nos deixa muito perplexos […] o Deus revelado na cruz de Jesus não pode ser considerado impassível e apático, no sentido estóico. Ao contrário, é um Deus-Ágape que se faz homem, e homem servidor […] [1]

Paulo também nos chama atenção a esse esse Deus-homem para que o imitemos: “De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, Que, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, Mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; E, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz.” (Fl 2:5-8)

O Deus-humano é a chance de eu ser perdoado, e não me tornar juiz quanto ao pecado do outro (e isso não significa concordar com o pecado); deixe que Ele, a seu tempo, castigue a cada um segundo suas obras e oremos para que não estejamos inclusos (lembrando que nosso coração vale mais do que as obras, não sendo assim, fácil descambamos para o farisaísmo).

O Deus Jesus é oportunidade de sermos sarados, e nos livrar dos deuses do nós mesmos, de nos esvaziarmos de nós, da idolatria do EU, que nos faz deuses e fazedores de deuses ao nosso bel prazer.

[Josias Silva]

[1] Alfonso Garcia Rubio. A Caminho da Maturidade na Experiência de Deus (São Paulo: Paulinas, 2008) p.45-47

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