Conhecer é sofrer

images (6)

Conhecer é sofrer

Passa-se os anos e percebo que cada momento se me escapam os minutos da vida que tenho a adiante, de repente no romper da aurora, acordei com 40 anos. Não estou velho. Eu sei. Todavia já estou na idade madura e breve a velhice. Mas é incrível como que o passar tempo vou me moldado à novas preocupações, novas perspectivas do mundo e novos valores, antes não vistos.

O maior exemplo, é meu olhar crítico com relação ao que ocorre ao nosso redor: família, igreja, país, mundo etc. Parece-me que quanto mais vou aprendendo com a vida, com os livros, com as pessoas, mas percebo o quanto a vida é dor. O quanto a vida é trágica.

Talvez para alguém que está acostumado a escutar as famosas frases de auto-ajuda “você nasceu pra vencer” isso soa como nosense, mas me refiro aos problemas que todos temos, uns mais do que outros, admitamos, mas todos temos.

Talvez para você que tem um bom trabalho, uma boa casa, uma boa familia, é loucura afirmar que a vida é trágica. Mas me refiro ao mundo que talvez nós não queiramos ver, de gente que sofre ao nosso lado sem ter o que comer. Gente que perdeu ente querido assassinado por delinqüentes. Gente que sofre porque nasceu pobre e não consegue mudar de viva e não tem dinheiro para ter onde morar e sustentar sua família. Gente que nesse momento está agonizando em estágio terminal numa fila hospital sem nenhuma perspectiva de vida.

O que acontece é que, quanto mais conheço do mundo nas minhas leituras, e observo “A vida como ela é” (Nelson Rodrigues) mais me aborreço com o que as coisas são. Há uma inconformidade com reações do ser humano, com o descaso com o semelhante, com a vida. Basta olhar os jornais, ver que o mundo a cada dia vai de mal a pior.

O conhecimento me mal trata, mas não posso ser indiferente ao que é verdade e está diante dos meus olhos “a verdade liberta” diz o Mestre. Quanto mais conheço a história das civilizações, o homem, a história dos poderosos e a sua “Vontade de poder“, como diz Nietzsche, mais me causa inquietações e indignações diante do status quo que tenta me fazer engolir as coisas como são de modo estruturalista e determinista me tirando a liberdade de pensar.

Não posso aceitar um mundo injusto onde poucos têm tanto e muitos não tem nada; não posso dormir o sono da convivência e conivência cínica e me dizer cristão por que vou aos cultos e choro na palavra e no louvor. Não, não posso ser totalmente feliz se há infelicidades ao meu redor. Não posso me sentir merecedor de uma vida estável enquanto muitos morrem de fome.

Não posso ver o mundo apenas pelas lentes de meus óculos enquanto existe um “mundo de ponta cabeça” diante mim, no dizer de Christofer Hill.

O  conhecimento de como as coisas são, e são, não porque tinham de ser assim, mas porque alguém assim as fez ser, me maltrata e me causa desgosto. Salomão, talvez o homem mais pessimista e realista da bíblia lamenta o saber comparando com o sofrer:

…me esforcei para compreender a sabedoria, bem como a loucura e a insensatez, mas aprendi que isso também é correr atrás do vento. Pois quanto maior a sabedoria, maior o sofrimento; e quanto maior o conhecimento, maior o desgosto” Eclesiastes 1.17-18.

Conhecer é sofrer. E uma vez que “A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original” (Albert Einstein). Não olhar para o que a vida tem de maltrato e de mórbido, nos torna insensíveis, imbecilizados; não buscar conhecimento do que podemos aprender para que a vida seja melhor, dando as costas para realidade, e as discrepâncias desse mundo, – bailando com felicidade sangrenta de outrem – é o ápice do cinismo.

Agora entendi Nietzsche em “O Nacimento da Tragédia” pois as tragédias gregas (peças teatrais normalmente mostrando os infortúnios da vida) queriam ser a reflexão do que se pode a melhorar. As tragédias nos ensinam mais do que as festas. Temos mais a aprender com as lágrimas do que com o sorriso. Não foi isso que Salomão disse “Melhor é ir à casa onde há luto do que ir a casa onde há banquete; porque naquela se vê o fim de todos os homens, e os vivos o aplicam ao seu coração” pois ali está a reflexão do que é a vida.

Por vezes, para disfarçar “O mal estar da civilização“(Sigmund Freud) que há entre nós, nos apegamos ao “Pão e Circo” – política vigente no Império romano quando estava dando seus sinais de crise -, e precisava entreter o povo que sofria, fazendo-os esquecer dos seus problemas – por isso os “espetáculos” com a morte de cristãos no Coliseu. Segundo Nietzsche, quando a Grécia trocou as tragédias pelas comédias, sua cultura entrou em decadência. (Claro que não estou advogando o sofrer, ser feliz e sorrir é tudo que queremos e faz bem, mas, sorrir de tudo é burrice).

Assim são muitos que preferem se entreter com circos a refletir na realidade monstruosa da vida.

Assim, às vezes, somos até em nossas igrejas, reconheçamos que há crises mas nos contentamos com “Pão e Circo” em um culto que nos sintamos bem, e que já nos põe na zona de conforto. Para que pensar, para que chorar se a vida é bela? Para que sofrer com problemas alheios se estou bem? Se queremos paz e sossego, realmente, fiquemos em nossa poltrona confortável “cada um com seus problemas, eu quero é ser feliz”.

Me sinto inócuo, impotente, preciso sair dessa inércia, palavras ja não me satisfazem, preciso ser mão que ajuda o necessitado, quero ser o sol que ilumina o dia escuro de alguém. Quero ser luz. Me sinto mal de viver em meio ao caos do mundo, me sinto mal em buscar conhecer, e, passando a conhecer, me manter na estera dos teóricos que tem o diagnóstico mas não aplica o remédio. Conhecer é sofrer…

J.S.