Quando o Silêncio é Preciso

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Preciso aprender a restringir-me no meu tempo, no meu espaço e no meu silêncio. As palavras podem ser fortes para quem ouve, mas, às vezes, causam vazios para quem as dizem. Não porque as dissemos, mas porque nem sempre é momento de dizê-las. O dizer, em certas ocasiões, pode ser uma forma masoquista e cruel de machucar-se, quase uma autofagia.

Mas penso que a vida é essa eterna dicotomia: as palavras e o silêncio; o bem e o mal; as ternuras e desventuras; – a felicidade e a tristeza. Na realidade, a felicidade só é feliz quando existe tristeza. A tristeza faz um minuto de alegria ter gosto de quero mais. Assim, cada minuto que passamos para chegar ao topo da montanha é precioso. A felicidade, pode não está lá em cima, mas no caminho para de chegar lá. E esse caminho, pode ser as alegrias e tristezas que fazem a felicidade valer a mais pena.

Aqui poderíamos chamar de <alegria> o falar; e de <tristeza> o silêncio. Como a Bíblia diz “tempo de chorar e tempo de rir (…) tempo de estar calado, e tempo de falar”. (Eclesiastes 3:4;7)

Portanto, o silêncio é preciso. O silêncio, traz introspecção. E esse interiorizar-se é encontrar-se consigo mesmo – com sua alma: suas verdades e mentiras, erros e acertos, virtudes e pecados – razões e emoções. Para mim, que sou ávido pelas palavras e a expressão escrita, é quase um jejum. Mas necessário. Talvez por isso o inquieto José Saramago (que já não esta entre nós) disse:

Há ocasiões que é mil vezes preferível fazer de menos que fazer de mais, entrega-se o assunto ao governamento da sensibilidade, ela, melhor que a inteligência racional, saberá proceder segundo o que mais convenha à perfeição dos instantes seguintes.

O silêncio, muitas vezes, é como as imagens das nuvens que se formam no céu – silencioso, porém nos dizem – mesmo sem palavras – qual a direção do tempo, se haverá tempestade ou bonança.

O silencio, é o momento reflexivo entre o pensar e o falar – para depois saber o que fazer. Entendo que no silencio também encontramos Deus, pois Ele não fala só no soprar do vento (como em Pentecostes) – mas também na calmaria (como quando acalmou e vento e o mar no barco com os discípulos).

Citando mais uma vez José Saramago – em um de seus devaneios agnósticos, nos diz algo totalmente teísta – talvez sem se dar conta “Deus é o silêncio do universo, e o homem o grito que dá um sentido a esse silêncio”. E quantas vezes não gritamos calados…

O inteligentíssimo Machado de Assis, diz em um dos seus contos “Muitas coisas melhor se diz calado, pois o silêncio não tem fisionomia mas as palavras, sim, muitas faces

Estar em silencio, é reconhecer a nossa finitude e as nossas limitações; e por as inquietações da alma somente em Deus. Estar em silencio, é ter esperança quando as possibilidades humanas se esgotam e só nos resta depender do Divino…

Servo de Cristo,

Josias Silva

O Tempo e a Saudade

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Das coisas mais tristes, e também mais lindas de se sentir – é a saudade. A saudade é algo difícil de explicar, na realidade, toda emoção é difícil de explicar; e saudade é emoção. Saudade tem a ver com a alma. É como tentar explicar a lágrima, não há explicação, por mais cientificamente que se tente explicar, não pode explicar a vontade chorar. Saudade não se explica, se sente.

Saudade é como quando a gente é pequena, e tem vontade de comer doce, a vontade não passa enquanto não comemos. Só que quando a gente é adulto, nem sempre conseguimos comer os doces que queremos, pois, às vezes, eles nem fazem mais parte desse mundo, ai, a vontade e saudade se confundem. Rubem Alves diz no seu livro Tempus Fugit, que significa – O tempo foge: “Quem sabe que o tempo está fugindo descobre, subitamente, a beleza única do momento que nunca mais será”

Às vezes sinto saudades de coisas singelas – como ver meu pai chegando às sextas-feiras do trabalho e ficar feliz porque no sábado de manhã iríamos na casa do meu tio, Zequinha; ou para algum lugar que faríamos uma parada no “rancho da pamonha”. E eu iria me deliciar com saborosas pamonhas. Saudade de quando minha mãe fazia roupas para mim e eu saía me exibindo para meus coleguinhas da escola, me sentindo muito bem vestido e feliz; mas não havia sentindo de competição ou rivalidade, era tudo muito puro.

Saudade de quando íamos à igreja e não víamos maldade nas pessoas, não percebíamos que havia ganância por posição, status, poder e exclusivismos. Não se notava tanto egoísmo e egocentrismo. Deus era a única coisa que importava, parece que havia uma comunhão intensa entre a maioria; o comum era mais importante que o individual. Tudo parecia ser muito correto e havia um grande temor da maior parte de nós com as coisas de Deus. Nesse tempo ninguém precisava de subterfúgios para ir à igreja. E não havia, tal como Nicolau Maquiavel “os fins justificam os meios” para dar resultados – Jesus era o começo o meio e o fim.

Saudade de lugares que nunca mais vi; uma nostalgia que parece nos arrebatar. Saudade de ouvir meu irmão, o Ezequiel ou “Quiel” (como o chamávamos), cantando Caetano Veloso, e eu ficar de olho em seus dedos para aprender tocar violão; como na música Tigresa “E eu corri pra o violão num lamento, e a manhã nasceu azul. Como é bom poder tocar um instrumento”. Saudade de ser inocente e achar que todo mundo era bom, e que o futuro seria sempre um amanhã muito distante, pois ainda havia muito tempo. Saudade de boas risadas com amigos que eram mais que irmãos e que nunca esquecemos.

Saudade de quando era domingo de manhã, e minha mãe fazia cuscuz pernambucano para comermos. Hmm!, valia muito a pena acordar cedo. Saudade quando chegava à época de Natal, e meu pai trazia um panetone que ficava guardado em cima da geladeira para ser servido somente no Natal. E eu não via a hora de chegar o Natal para comê-lo!

Cecilia Meireles nos da uma ideia do que é saudade no poema “Silenciosas Lembranças”

De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…

 Fernando Pessoa já diz de uma maneira mais nostálgica sobre a saudade:

Saudades! Tenho-as até do que me não foi nada, por uma angústia de fuga do tempo e uma doença do mistério da vida. Caras que via habitualmente nas minhas ruas habituais – se deixo de vê-las entristeço; e não me foram nada, a não ser o símbolo de toda a vida.

Saudade tem a ver com tempo. Saudade é a vontade de voltar a um tempo que já não existe, mas que ainda há dentro do coração. Rubem Alves diz: “A saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar.” Aliás o tempo parece ser eterno, pois, se paremos pra pensar, quem passa, não é o tempo, somos nós. Por isso a alma eterniza a memória do que já não há para nós, mas que, para ela (a alma) – ainda existe. A alma é nossa eterna finitude frente a infinitude de um momento. O tempo, no sentido cronológico, é criação humana. Mas o tempo em si, é livre de tempo: é atemporal, é continuo, é perene – é eterno. A eternidade, sempre existiu. Sendo assim, pode se dizer que, na realidade, o tempo nunca houve, nem haverá, o tempo é o agora.

Depois que escrevi estas sentenças, fui ler o poeta dos poetas, T.S Eliot, e fiquei espantado com a constatação da similaridade de ideia em relação ao tempo; percebi que não estou só nesse afirmação. Vejamos:

O tempo presente e o tempo passado. Estão ambos talvez presentes no tempo futuro. E o tempo futuro contido no tempo passado. Se todo o tempo é eternamente presente. Todo tempo é irremedivel. O que poderia ter sido é obstração Que permanece, perpétua possibilidade. Num mundo apenas de especulação. O que poderia ter sido e o que foi. Convergem para um só fim, que é sempre presente. Ecoam passos na memória. Ao longo das galerias que não percorremos. Em direção à porta que jamais abriu. Para o roseiral. Assim ecoam minhas palavras. Em tua lembrança.

Rubem Alves, parafraseando Adélia Prado, também tem alguma coisa a dizer em relação a eternidade e memoria, que poderíamos traduzir por Tempo e Saudade. Diz ele:

Aquilo que está escrito no coração não
necessita de agendas porque a gente não
esquece. O que a memória ama fica eterno
.

O tempo e a saudade são amigos mais que inimigos. São instantes eternos que nos roubam a alma num sonho que sonhamos acordados e sempre existirá.

Josias Silva

Só para Amigos

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Como são raros os amigos (amigos de verdade, sem troca de interesses ou momentâneos). Quem encontrar um, excelente coisa achou. A amizade de verdade, é algo que se conquista e se constrói com o tempo; como o amor, ninguém ama por obrigação, mas ama simplesmente por amar, ou por um ato de reciprocidade que se torna, com o passar do tempo – amor. Aliás, uma das palavras na Grécia Antiga para “amor” era Filéo, que significa “amigo” ou “amizade”

Amigos são aqueles irmãos que não são da família, mas que são quase de sangue; a Bíblia os chama de “amigos mais chegados que um irmão” como João e Jesus. Embora a reciprocidade é marca da verdadeira amizade, no entanto, amigos que dependem uns dos outros para serem amigos, são colegas. A verdadeira amizade não é troca de favor; amigos de verdade se completam “quando um cai o outro levanta“. Há amigos distantes, mas sempre amigos, há amigos defeituosos (e quem não é ) mas sempre amigos.

Acho que por isso o magnífico Fernando Pessoa disse:
É bonito ser amigo, mas confesso: é tão difícil aprender! E por isso eu te suplico paciência. Vou encher teu rosto de lembranças, dá-me tempo, de acertar nossas distâncias.”

Na realidade, amigos são bem mais do que um bom passeio aos finais de semana – o que poderia ser feito com qualquer outra pessoa; aí, o momento de “diversão”, pode ser confundido com o prazer de estar junto. Amigos de verdade, vêem diversão e prazer em conversar sobre quaisquer banalidades; aliás, as “banalidades”, na verdadeira amizade, tornam um minuto de conversa, em uma eternidade de diversão.

Rubem Alves também concorda com isso: “Se o silêncio entre vocês dois lhe causa ansiedade, se quando o assunto foge você se põe a procurar palavras para encher o vazio e manter a conversa animada, então a pessoa com quem você está não é amiga. Porque um amigo é alguém cuja presença procuramos não por causa daquilo que se vai fazer juntos, seja bater papo, comer, jogar ou tramar (…) Com o amigo é diferente. Não é preciso falar. Basta a alegria de estarem juntos, um ao lado do outro. Amigo é alguém cuja simples presença traz alegria independentemente do que se faça ou diga. A amizade anda por caminhos que não passam pelos programas.”

Outro ponto do amigo é a sinceridade, amigo verdadeiro diz sempre a verdade, mas sabe a hora de falar e ouvir, (ademais, ouvir, é um dom de amigo) sabe dar liberdade ao amigo para não sufoca-lo com suas opiniões. Outra vez recorro a Rubem Alves que diz “É preciso saber ouvir. Acolher. Deixar que o outro entre dentro da gente. Ouvir em silêncio. Somente sabem falar os que sabem fazer silêncio e ouvir”.  O que marca da verdadeira amizade, é a arte saber ouvir,  falar e ver qualidades onde há defeitos, se preciso, corrigi-los falando o que se deve ser falado, mas nunca constrangendo e envergonhando.

Enfim, amigo é uma joia preciosa que quem encontrar se torna rico, mesmo continuando pobre. Pois há quem tenha muito dinheiro, e é pobre por não ter verdadeiros amigos. Amigo é como um tesouro que deve ser seguramente bem guardado; Nilton Nascimento acertadamente diz: “amigo é coisa pra se guardar debaixo sete chaves (…) dentro do coração“. Talvez você (como eu) já se decepcionou e tem dificuldades com amigos. Todavia, ame seus verdadeiros amigos e descubra que a vida não foi feita para solidão; há sempre alguém perto de você querendo ser teu amigo, encontre-o, ame-o, valorize-o. Seja para os seus amigos o que gostaria que fossem para você, e verá que ser amigo é a melhor maneira de ter amigos.
Deixo-lhe com Machado de Assis:
Abençoados os que possuem amigos, os que os têm sem pedir.
Porque amigo não se pede, não se compra, nem se vende.
Amigo a gente sente!
Benditos os que sofrem por amigos, os que falam com o olhar.
Porque amigo não se cala, não questiona, nem se rende.
Amigo a gente entende!
Benditos os que guardam amigos, os que entregam o ombro pra chorar.
Porque amigo sofre e chora.
Amigo não tem hora pra consolar!
Benditos sejam os amigos que acreditam na tua verdade ou te apontam a realidade.
Porque amigo é a direção.
Amigo é a base quando falta o chão!
Benditos sejam todos os amigos de raízes, verdadeiros.
Porque amigos são herdeiros da real sagacidade.
Ter amigos é a melhor cumplicidade! (…)

Servo de Cristo,

Josias Silva

As palavras e seus encantos

Palavras

No início era o verbo…” ― João, 1:1 

As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.” ― Victor Hugo

Quero falar um pouco sobre as “palavras”. Sei que quando digo “palavras” nós, cristãos, já pensamos na Bíblia, a Palavra de Deus, a Palavra das palavras, e sem duvida, a mais importante para nós. Mas o enfoque que quero dar-lhes é do sentido semântico do que entendemos por “palavra”. Ou seja, o jogo de letras que quando juntadas temos um texto, uma ideia, um poema, uma historia, etc. As palavras provocam um sentido quase que mágico em nós, tanto para quem escreve como para quem lê.

Rubem Alves chega ao ponto de dizer que, quando escrevemos, “fazemos amor com as palavras”, e o texto é o resultado desse amor, como se estivéssemos dado a luz. Fico extasiado com homens que se debruçaram em uma folha de papel para escreverem suas idéias, homens que perceberam o quanto as palavras são importantes. Acho que não há texto melhor para expressar o que quero dizer como o do escritor chileno Pablo Neruda:

“Sim, Senhor, tudo o que queira, mas são as palavras as que cantam, as que sobem e baixam … Prosterno-me diante delas… Amo-as, uno-me a elas, persigo-as, mordo-as, derreto-as … Amo tanto as palavras … As inesperadas … As que avidamente a gente espera, espreita até que de repente caem … Vocábulos amados …
Brilham como pedras coloridas, saltam como peixes de prata, são espuma, fio, metal, orvalho … Persigo algumas palavras … São tão belas que quero colocá-las todas em meu poema … Agarro-as no vôo, quando vão zumbindo, e capturo-as, limpo-as, aparo-as, preparo-me diante do prato, sinto-as cristalinas, vibrantes, ebúrneas, vegetais,
oleosas, como frutas, como algas, como ágatas, como azeitonas … E então as revolvo, agito-as, bebo-as, sugo-as, trituro-as, adorno-as, liberto-as … Deixo-as como estalactites em meu poema; como pedacinhos de madeira polida, como carvão, como restos de naufrágio, presentes da onda … Tudo está na palavra … Uma idéia inteira

muda porque uma palavra mudou de lugar ou porque outra se sentou como uma rainha dentro de uma frase que
não a esperava e que a obedeceu… (…) as palavras.”

As palavras podem fazer com que se mude o curso de uma vida, tanto para o bem e para o mal; temos exemplos latentes disso nos anais da historia, de como e o quanto as palavras são importantes no mundo em que vivemos. O sábio Salomão disse: “Como maçãs de ouro em selva de prata é a palavra dita ao seu tempo”. Ou seja, palavras ditas na ocasião certa, para o que é certo, bom, justo e louvável. Incrível a força que as palavras têm!

Mas quero deixar bem claro que não estou me referindo a famigerada “confissão positiva” de k. Hagin, ou como é popularmente conhecida “teologia da prosperidade” que faz das palavras um “abracadabra” para conseguir o que “declaramos” ou “decretamos” como se Deus fosse um “gênio da lampada”, e que é só dizer as “palavrinhas magicas”. Me refiro ao poder que elas possuem como, ideal, horizonte, mudança de paradigmas, transformações e porque não dizer até revoluções, como a Revolução Francesa, Inglesa, Russa, e outras…

Jesus – que para nós cristãos, é nosso Deus e Mestre -, nunca escreveu nada, no entanto, suas palavras foram escritas postumamente, pelos menos 30 anos após sua morte; e tais palavras mudariam a historia da humanidade. Seria impossível falar de amor, vida, paz, ética, igualdade, humildade, sabedoria, educação, entre outras coisas, sem que não lembrasse-mos de Jesus. Sócrates também, nunca escreveu nada, concebia suas ideias apenas nos diálogos, registrados pelo seu aluno, Platão – tática essa conhecida por “maiêutica socrática”, isto é , dar “luz” as ideias no ato da conversação, fazendo com que o interlocutor repensasse o que acabara de afirmar, levando-o a um novo jeito de pensar totalmente diferente, ou até ao contrario do pensava saber.

Poderíamos mencionar centenas de personalidades que fizeram historia com suas palavras. Para citar alguns, homens como: Salomão, Tales, Pitágoras, Heráclito e Xenófanes, Sócrates, Platão, Confucio, Aristóteles, Homero, Heródoto, Cícero, Sêneca, Paulo, Agostinho, Tomas de Aquino, Copérnico, Galileu, Newton, Lutero, Calvino, Kant, Hegel, Marx, Freud, Nietzsche, Rousseau, Locke, Montesquieu, entre muitos, muitos outros.* (P.S: Aqui não mencionei Jesus, para não coloca-lo, em pé de igualdade com os demais, pois Ele é a consumação de tudo que a sabedoria humana tentou conhecer, Ele é o “LOGOS”, a razão, a origem, a existência, como Diria Kant a coisa em si, Ele é a própria PALAVRA).

E o que estes homens tinham em comum? Tinham a certeza de que suas palavras poderiam mudar o mundo, ou pelo menos o ambiente em que viviam. Lendo aqui, agora William Blake, percebo também o quanto foi, e é importante para o mundo as palavras dos poetas, que vem numa pequena e simples borboleta, a grandeza e imensidão de Deus. Diz Blake:

“Ver o mundo num grão de areia, 
ver o céu em um campo florido, 
guardar o infinito na palma da mão,
e a eternidade em uma hora de vida!”

Assim os poetas enxergam o mundo e o interpreta através das palavras. Pessoas como estas, participam do dom de Deus, (o que os teólogos chamam de “graça comum” – ou seja, a graça não para salvação, mas para contribuírem com o melhoramento desse mundo, pela arte, pela musica, pela medicina, literatura, amor humano, etc). Tal como Paulo diz, em 1 Timóteo 4:4 “Pois tudo o que Deus criou é bom, e nada deve ser rejeitado, se for recebido com ação de graças” Os poetas trazem a brandura de suas palavras e torna-nos mais sensível ao efêmero, fazendo-nos enxergar com a alma a infinitude no finito, a transcendência no imanente. As palavras fazem com que tenhamos sonhos, alegria, sensibilidade e tentamos através delas escrever um mundo melhor, pois uma vida sem sonhos não vale a pena ser vívida, os sonhos são a ponte das realizações. Lembrei-me de Francisco Otaviano,

Quem passou pela vida em brancas nuvens
e em plácido descanso adormeceu.
Quem nunca bebeu das fontes da alegria,
da paz, do amor, do silêncio e da harmonia.
Quem nunca se deleitou com a meditação.
Quem nunca experimentou o êxtase interior.
Vegetou. Se arrastou do útero à cova…
Foi um espectro de homem, não foi homem.
Só passou pela vida, não viveu.

Com palavras exteriorizamos o que há dentro de nós, o que há na alma, com o intuito de que consigamos mudar alguma coisa nesse mundo tão difícil de viver. Não é assim que que os psicólogos trabalham, com interiorização através das palavras para tentar descobrir o que esta inconsciente em nossa mente? O pai da psicanalise, Sigmung Freud diz:

Aprendemos a falar na medida em que associamos uma ‘imagem acústica da palavra’  com uma ‘sensação ao nível de inervação da palavra’. Quando falamos, chegamos à posse de uma ‘representação motora da linguagem’ (sensações centrípetas dos órgãos da linguagem) de tal modo que a ‘palavra’ é para nós duplamente determinada a nível motor. (…) Além disso, após o falar obtemos uma ‘imagem acústica’ da palavra pronunciada.”

As palavras são como bússola em alto mar, que nos dão norte para não ficarmos perdidos. É essa a maior força que as palavras contém , o de conduzir, o de alertar, o de apontar o erro, o de sugerir, o de mudar, o do ver horizontes após a escalada da montanha, o der ordenar em meio ao caos.

Ouras vez nas palavras de R. Alves “As palavras só têm sentido se nos ajudam a ver o mundo melhor. Aprendemos palavras para melhorar os olhos. Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem… O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido!”

E é neste sentido que escrevi este texto, o de valorar as palavras como motor móvel de ações utópicas, não utopia no sentido de ilusão intangível,  mas no sentido de visionar projetos, melhoras, de ter um ideal de algo que não esta ao nosso alcance para que cheguemos pelo menos perto do que queremos. Assim os grandes escritos mudaram o mundo – pela magnitude das palavras.

Todos esses homens que citei acima fizeram historias com suas palavras, alguns foram mortos pelos que pensavam e escreviam; mas suas palavras foram postas em pratica após sua morte. Se hoje, por exemplo, temos uma democracia, um sistema republicano anti-autoritarista, liberdade de expressão e de religião, foi pelas palavras de muitos desses pensadores; que acreditaram que suas palavras fariam alguma diferença. Os poetas, como já foi dito, ajudam a ver o mundo com certo “encanto” mais “colorido” dessa maneira contribuem para aguçar nossa sensibilidade . Cristo, mudou o mundo através de suas palavras e seus atos. Como disse Rubem Alves: ”Se a crítica deixa as coisas como estão, por que fazer a crítica da crítica? Se as palavras são vazias de poder, por que usar tantas palavras para discutir o poder? Não, o fato é que todos aqueles que ainda têm a ousadia de falar e escrever, acreditam, ainda que de forma tênue, que o seu falar faz uma diferença“.

Acredito piamente no exercício das palavras, juntamente a uma ortopraxia das mesmas, ou seja, – na objetivação das palavras.  A palavra “ortopraxia” vem do grego, ὀρθοπραξία: orthopraxia, que significa “ação correta”. No tempo de Jesus havia uma preocupação com a “ortodoxia”, o “ensino correto”, Jesus mostrou através das palavras e suas ações, que elas têm poder de mudar o mundo untadas a praticas das mesmas.

Enfim, é neste sentido que valorizo as palavras, o de buscar a pratica dos escritos, seja com Bíblia – para mudarmos o mundo e nós mesmo através de suas palavras, seja uma critica para melhoramento, seja um poema, seja uma cronica, seja uma musica, seja com os pensamentos – as palavras vão sempre adiante.

Servo de Cristo,

Josias Silva

*Que fique claro que nem todos os nomes citados sou a favor ou estou em acordo com suas posições. Citei-os apenas pela relevância de pensamento que cada um deles exerceram na historia da humanidade.