Jesus: o Deus humano

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Quem se propõe a ler os Evangelhos de Jesus com o mínimo de atenção, não precisa ser exegeta para perceber que o teor dos discursos de Jesus era envolto de sensibilidade humana, amor e compressão com a criatura. Jesus era um homem extraordinário, singular, único e sublime. E quando digo “homem” me refiro a humanidade de Cristo, talvez para alguns dizer que Jesus era homem soe como negar sua divindade. Não, pelo contrário, o que também tornou Jesus divino era exatamente o seu lado humano; parafraseando com Nietzsche “Humano, demasiado humano

Seria impossível pensar em Jesus, sem pensá-lo como homem. E na realidade, o lindo de Jesus, não está apenas nos seus atos milagrosos como Deus – que o era também -, mas como já se disse – em sua humanidade. Muitos, ao admirá-lo, querem o poder de milagres que Ele tinha como Deus, mas poucos querem ser tão humano como ele era – perdoando e amando a todos. O homem, como humano, quer ser como Deus; Jesus, como Deus, abriu mão de tudo, e quis ser simplesmente humano. Por isso Leonardo Boff, espantado com tamanha humanidade de Cristo, foi feliz ao dizer: “Sendo tão humano assim, só podia ser Deus mesmo“.

Jesus tinha uma sensibilidade tão grande como humano que não daria para imagina-lo raivoso ou irado. Mesmo que tenha, em certos momentos, se enraivecido com os mercadores de fé no templo, pela revolta do que estavam fazendo em nome de Deus num lugar onde deveria ser somente para adoração. Embora, Ele mesmo depois mostraria que adoração, não estava atrelada apenas ao templo – que para os fariseus era a única forma de adoração. Talvez se vivesse aqui nos dias de hoje, teria o mesmo sentimento com o que os ambiciosos capitalistas que, para sustentar suas vaidades, fazem do nome de Jesus como – disse Frei Betto em um excelente texto -, um “mercado da fé”

Jesus era totalmente contra qualquer tipo de violência e autoritarismo em nome da “religião perfeita” como fazem alguns religiosos fundamentalista ainda nos dias de hoje. Aliás, essa forma de enxergar Jesus como um ditador da religião “pura”, foi quem levou a Igreja católica romana no séc. XVIII, sob o Papa Gregório IX, inventarem a “Santa Inquisição”, matando queimado os que pensavam diferentes dos dogmas da igreja, denominado de “hereges” como forma de “purificação” pois Jesus – diriam eles, é “fogo consumidor”.

Foi essa forma de pensar Jesus como o “zeloso” que fizeram séculos de guerras, entre cristãos e muçulmanos nas famosas Cruzadas em Jerusalém com o intuito de “libertar” Jerusalém do Islã. E, mais adiante no séc. XVI, na história da igreja após a Reforma Protestante, a sangrentas batalhas com os protestantes e o católicos com o propósito de salvaguardar a “sã doutrina” de ambos os lados – como a carnificina na Noite de São Bartolomeu que resultou na morte de milhares de católicos e protestantes.

Jesus nunca teve nada a ver com Isso, pois Ele veio trazer amor e paz, mesmo que sua fala em meio a religiosidade farisaica do seu tempo, soava como uma revolução. Pois quem diz a verdade, sempre arruma inimigos, a zona de conforto é a melhor desculpa aos ditos ”pacificadores”. Lembrei-me de Lutero, “Paz se possível, mas verdade a qualquer preço”. Muitos viam Jesus como o perturbador de Israel, um agitador, um subversivo. Roma, politicamente falando, o via como um perigo a ordem pública – o que era temido pelos romanos dadas as revoltas judaicas já ocorrida na região; os judeus, por sua vez, o considerava como uma ameaça a “verdadeira religião” a famigerada “tradição” que matava, se possível, em nome do “zelo” das coisas de Deus, mesmo que seus corações fossem podres e cheiravam mal com um sepulcro caiados “que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda a imundícia.” (Mt 23:27).

Daí as palavras sempre duras com os fariseus dono da “ortodoxia”, do jeito de “certo” de servir a Deus, principalmente, exteriormente, para todos verem, o que Jesus chamava de hipocrisia; esses, “coavam um mosquito e engoliam um camelo”. (Mt 23: 24). Jesus chega a usar exemplos de pessoas odiadas pelos fariseus, como os samaritanos e cananeus para corrigi-los (Lc 10; Mt 15).  E aqui, como Jesus deixa bem claro, que haverá muita surpresa no céu.

Jesus sempre apregoou o amor, seu lado “raivoso” sempre dispensou para os religiosos. As pessoas comuns, consideradas pecadoras como cobradores de impostos, prostituas, cegos, paralíticos, cegos, pobres e toda a escória da sociedade, Jesus nunca os tratou mal. Sempre amava e ensinava a amar, ao ponto de pedir para amar até os inimigos (Mt 5.43-48). O que Jesus ansiava era que as pessoas fossem mais humanas, mais sensíveis, mais verdadeiras, mais justas, empáticas e menos egocêntricas e exclusivistas. Jesus nos mostra uma forma de viver tão humana, que se o mundo tivesse aceitado, teríamos quase um paraíso. J. Comblin chega a dizer que alguns ensinos no decorrer da historia de igreja sobre Jesus, deturparam quem Ele realmente era e o que queria para humanidade – diz ele: “Como vamos transmitir a mensagem de Jesus, se o que é ensinado é uma doutrina elaborada posteriormente, marcada pela cultura e realidade, pelos impasses e desafios das épocas seguintes?”

Mesmo que nunca desejou as coisas e valores supérfluos desse mundo, ao que parece, Jesus queria que o céu – por assim dizer, – começasse aqui, era como uma volta a Adão no jardim do Éden. Uma correção do que seria o humano no princípio antes da queda. Essa era sua ideia de Reino de Deus, resgatar a bondade humana no próprio sentimento humano, no seu próprio habitat. Seria salvá-lo de si mesmo nesse mundo, para depois salvar sua alma em outro. Concordo plenamente com Leonardo Boff quando pondera:

Jesus não começou anunciando a si mesmo ou à Igreja. Anunciou o Reino de Deus, que significa o sonho de uma revolução absoluta, que se propõe transformar todas as relações que se encontram deturpadas, no pessoal, no social, no cósmico e, especialmente, com referência a Deus. Esse reino começa quando as pessoas aderem a esse anúncio esperançador e assumem a ética do Reino: o amor incondicional, a misericórdia, a fraternidade sem fronteiras, a aceitação humilde de Deus vivido como Pai de infinita bondade.

Por isso Paulo o chama de segundo Adão “Porque, como, pela desobediência de um só homem [o primeiro Adão] muitos se tornaram pecadores, assim também, por meio da obediência de um só [o segundo Adão], muitos se tornarão justos” (Rm 5.19). A. T. Queiruga, um dos teólogos mais lúcidos do universo, diz ” Em Jesus se realiza o melhor de nos“. Por isso prefiro enxergar Jesus como alguém que só amou, que quer perdoar o homem para voltar ser a imagem e semelhança de Deus, que, segundo Calvino – se perdeu com a queda, principalmente no sentido ético. Claro que isso não descarta a sua justiça como o Justo Juiz, que um dia julgará a todos, bons e maus, ímpios e crentes.

Mas quero continuar enxergando o seu amor, pois se não fosse por isso, não sobraria um sequer, pois “todos pecaram e destituídos foram da glória de Deus” (Rm 23:3). Se for para imitar Jesus, que imitemos seu amor com o próximo, sua compaixão, sua sensibilidade e inteireza. Se for para imitá-lo, que imitemos seus atos belos, sua nobreza, sua cordialidade, sua justeza, sua maneira compreensiva, ajudadora e benévola.

Mahatma Gandhi, certa vez ao perguntar-lhe sobre e o cristianismo – disse assim: “Não conheço ninguém que tenha feito mais para a humanidade do que Jesus. De fato, não há nada de errado no cristianismo. O problema são vocês, cristãos. Vocês nem começaram a viver segundo os seus próprios ensinamento”. Pois de qualidade de juiz e raivoso, como se mostrou pouquíssimas vezes, já temos em nós de sobra herdado de Adão, principalmente quando se trata dos pecados dos outros que esbravejamos com desculpa de sermos “zelosos”, mas escondemos os nossos debaixo do tapete de nossa linda religiosidade.

Jesus é amor, é esperança, é verdade – verdade que liberta das prisões interiores e íntimas de nós mesmos. Que libertar-nos dos espelhos mágicos que refletem imagens do que não somos, mas continuamos nos enganando. Como na crônica “Espelho” de Machado de Assis, que diz: “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para entro” – uma alma exterior que ilusoriamente projetamos como se fôssemos aquilo de fato, e o outra interior e real – que é o que realmente somos. Jesus está além do espelho que a religião projetou dEle, além das amarras feitas por nós mesmos em nome de uma espiritualidade que aprisiona ao invés de libertar.

Jesus é o melhor do ser humano, é a alegria de ser realmente alegre, mesmo na aflição e na dificuldade, e não pelo bem que irei adquirir hoje e que amanhã já não quero mais. Não creio que pessoas que vivem insatisfeitas com o que têm, mesmo tendo, são felizes; mesmo que pareçam muito “espirituais”. Mas a alegria de Jesus está em coisas simples tal como Ele era: ajudar alguém, em ser honesto, em ter paz no interior, em ver no efêmero a eternidade de Deus. E essas qualidades são tão humanas e alegra tanto a alma que chegam ser divinas. E isso, só tem e vê, quem tem a beleza de Cristo dentro de si.

Jesus é amor ao aflito, ao excluído, ao necessitado e desamparado que, às vezes, está do nosso lado, mas estamos muito ocupados com nossa “perfeita religião” e nossos desejos pessoais, para enxerga-los.  Antes de vê-lo com um Deus cruel e sádico, que esta nos esperando errar para nos condenar, eu prefiro ver o amor do Deus-homem: Jesus…
Servo de Cristo,

Josias Silva

Eu vejo Deus…

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Eu vejo Deus

Eu vejo Deus na pureza de uma criança, na singeleza de uma flor, nas cores inauditas do arco-íris, na imensidão do oceano, no som mar esbravejante, nas maravilhas da natureza e no infinito do universo. Sim, eu vejo Deus.

Eu vejo Deus, no esplendor da aurora, na brisa da manhã, no sol que nasce para o rico e para o pobre, para justo e o injusto, no ar que respiramos e na vida que há em nós. Sim, eu vejo Deus. Eu vejo Deus na perfeição do corpo humano, na caridade que ainda existe, no amor que é inexplicável, na família reunida, na diversão sadia entre amigos, no prazer de saborear, na ternura do luar. Sim, eu vejo Deus.

Eu vejo Deus na dor que há saudade, na magia da lembrança, no encanto da esperança, no sorrir de alegria, nas lágrimas de emoção, na inspiração do poeta, nas notas de uma canção, e na simples melodia que nos aquece o coração. Sim, eu vejo Deus.

Mas o vejo, principalmente, quando percebo que tão grandes coisas, são tão pequenas e efêmeras, comparadas a grandeza da existência desse Deus.

Quando falamos de Deus, falamos de nós mesmos: do que vemos, do que tocamos, do que sentimos, pois somos apenas reflexos dEle ” Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” Gn 1:26. Jesus também, mesmo sendo o Filho de Deus e a maior expressão do próprio Deus, ainda que tenha nos revelado muito do Divino, veio a este mundo como humano.

Nós, mesmo que tenhamos a Bíblia (nosso manual de fé) que nos diz muito a respeito dEle, no entanto, ainda o vemos sob a ótica humana, logo, limitada. Paulo disse: “Porque agora vemos por espelho em enigma, mas então veremos face a face; agora conheço em parte, mas então conhecerei como também sou conhecido.” 1Co 13:12. Longe do dogmatismo teontológico de quem Ele é (pois há quem pense que sabe até o número do sapato que “Deus” usa) resta-nos apenas pensamentos voláteis a respeito do incognoscível (física e essencialmente falando), do in-imaginável, do absoluto, do perfeito.

Boaventura diz: “Deus está acima: maravilhosamente, inexoravelmente acima. Os reflexos, as sombras e as marcas não lhe bastam; e não nos bastam. Conhecemos apenas o seu nome: Aquele que é. De resto, é inefável e incompreensível. Voltamos os olhos para a luz e temos a impressão de não ver nada; e não compreendemos que justamente essa escuridão é a maior luz que a nossa mente pode conhecer. Deus é puríssimo, absolutamente primeiro, ignora o não ser, não tem nada diferente de si mesmo, é completamente Uno”.

Para finalizar deixo-lhes uma frase de Fenelón: “Tu és tão grande e tão puro em tua perfeição, que tudo o que suponho de meu na ideia que tenho de ti faz com que imediatamente não seja mais tu mesmo. Passo minha vida a contemplar teu infinito; vejo-o e não poderia duvidar dele: mas assim que quero compreendê-lo, escapa-me, não é mais ele, torno a cair no finito”. Por isso, só posso dizer de maneira tênue, entre o real e o in-imaginário, entre o imanente e o transcendente: Eu vejo Deus…

Sola Gratia,

__Josias Silva, 2013