Ainda acredito…

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Ainda acredito no valor das verdadeiras amizades, desinteressadas, pura e não de “valores” comprados. Ainda acredito que haja seres humanos sinceros. Ainda acredito que haja traços da benevolência de Deus no/a homem/mulher.

Ainda acredito (apesar de o ser humano, de fato humano, não de coração de máquinas, estar em extinção) – ainda acredito na bondade. Ainda acredito no romper da aurora no horizonte pela manhã, que nos reserva as mais lindas metáforas que nos diz que o choro pode durar uma noite, mas alegria virá ao amanhecer.

Ainda acredito que a beleza se sobrepõe às mazelas do mundo, e que as cores do arco-íris brilham mais do que as pálidas e mórbidas cenas tristes em preto e branco que tentam ofuscar os raios vívidos do sol que reluz para todos figurando as misericórdias do Altíssimo.

Ainda acredito que, em mundo que a cada dia dá sinais de falência, existam homens do bem que não se corromperam pelo o poder, seja na política, seja na religião, seja na ciência, e que lutam por um mundo melhor.

Ainda acredito que enquanto a sociedade ideal não chega, é tempo de sermos felizes com os fragmentos de felicidades que o presente nos brinda, para que, amanhã, alguém consiga beber do sacramento da alegria servida por nós.

São valores simples que ainda me fazem acreditar que a vida vale a pena; que nem tudo é treva, que a luz existe. Se o mal sempre vencesse o bem, esse mundo não faria sentido; a moral não faria sentido – Deus não faria sentido – sendo assim, sei que o bem triunfará. Acredito na magia da vida, e que, viver, só vale a pena quando a gente acredita, quando a gente sonha, quando a gente tem esperança. Nas palavras de Agostinho:

A esperança tem duas filhas lindas, a indignação e a coragem; a indignação nos ensina a não aceitar as coisas como estão; a coragem, a mudá-las.

Sigo acreditando, e sempre acreditarei, porque acho que ainda vale a pena acreditar, por isso ainda nutro sonhos em mim. Como disse Fernando Pessoa:

Não sou nada. Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Josias Silva

 

Cuidando do Jardim

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Cuidando do Jardim

Às vezes, os espinhos com que machucamos outras pessoas, são auto-defesas inconsciente que adquirimos pelas marcas que deixaram em nossos jardins; nem tudo são rosas, os espinhos fazem parte.

Cada pétala arrancada, são dores que carregamos na esperança de sermos regados e, outra vez, brotar; brotar para as novas pétalas e novas rosas. Mas a terra pode ainda estar árida da sequidão e dos ventos, e, – até criar raízes e se resignar, pode leva um tempo.

Mas, de repente, sem que nos demos conta, o milagre do renascer, ao soprar da brisa e nas gotas de orvalho a cada manhã; os raios do sol e as águas das chuvas, fazem com a terra seca outra vez gerar vida.

As rosas novamente brotam e o que era velho se transforma em novo como em uma metamorfose, como uma borboleta no casulo, que se fechou no seu mundo escuro e solitário para nascer mais bela – e entao voar com asas lindas e ser admirada por todos; assim tambem é o novo jardim. Que maravilha, alegria voltou!

Cada um de nós somos um jardim, os espinhos são nossas dores e as rosas nossas alegrias, permita-se ser regado e cuidado. Os ventos? Ah, estes servirão para firmar as raízes, para que, no tempo certo, voltemos a florir…

By Josias Silva

“(Des)absolutizando”

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Quem pensa oposto de mim não é meu inimigo, pelo contrário, talvez uma chance de diálogo para eu não me centrar em mim mesmo e me tornar absoluto. O absolutismo por séculos sempre foi inimigo da razão e, consequentemente, da verdade.

A verdade é, em última instância, quem nos desnuda, nos põe a rever conceitos e conhecermos a nós mesmos, nossas virtudes e hipocrisias. Não era essa a inscrição do Oráculo de Delfos citada por Sócrates “Conhece-te a ti mesmo”? Por isso Cristo é Verdade, pois refaz o homem, o faz se conhecer, o faz nascer de novo.

Quanto a ser homem e absoluto, é impossível na proposta de Cristo, pois sua proposta já era contra os detentores da “verdade”.

Se a verdade humana for um fim em si mesma, não é a verdade de Cristo. Aliás, amamos a verdade quando ela diz do outro e a detestamos quando diz dos nossos defeitos.

Cristo nos chama a sermos verdadeiros, não absolutos. A verdade liberta o homem de si mesmo, das amarras de seu ego, de suas certezas incertas, de seus sepulcros interior disfarçados com flores.

A verdade não quer nos fazer deuses, mas humanos. Em Cristo, ser humano é algo divino. Em Cristo, ser Deus é humanizar-se. Os homens almejam divinizar-se, Cristo, sendo Deus, escolheu a incerteza humana, sendo Absoluto.

Um Deus tão humano assim só podia ser Deus mesmo.

J.S

Terra Brasilis

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Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem. (Manoel Bandeira)

Brasil, Terra das Araras, Terra de Santa Cruz, Terra Brasilis; as “Índias” buscada no “Novo Mundo” que seria explorado pela cúpula europeia ibérica por causa de interesses mercantis. Ávidos para expandirem seus territórios, povos foram discipados e dizimados, impondo-lhes nova cultura e costumes que lhes favoreciam seu domínio Imperial.

Uns, os índios, Tupinambás, Tupi Guaranis, entre outros, perderam suas terras, costumes; questionavam-lhes até se tinham alma, se eram bichos ou seres-humanos, tirando-lhes sua dignidade, religião e liberdade. Outros, os negros, foram trazidos escravizados para serem usados como animais domésticos sem que tivessem escolha, a trabalhos forçados; sua cor era a marca de inferioridade, como se cor e raça fossem predicados para dominação e segregação de outra raça “superior” (algo que se perpetuou até hoje).

Assim nascemos, sem ser nós mesmos, sem direitos, apenas deveres, endividados, esfacelados e sem valor. O povo brasileiro é o resultado de interesses de outrem e continuamos vítimas algozes de gente que seu ventre é o centro do mundo; por isso a mente escravocrata ainda é tão presente, por isso ainda babamos em quem tem “poder” e nos sentimos inferiores.

Nosso saudoso Darci Ribeiro, antropólogo magistral e genuinamente brasileiro, diz:

Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si… Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros…

E continuamos sendo um povo que a “liberdade” é apenas para quem manda no país. As elites, reis, barões, condes, etc., só mudaram de nome. Enquanto nós, brasileiros, lutamos e morremos pela violência diária decorrente de um sistema sujo e medíocre que exclui, massacra e emburrece para que as coisas fiquem como estão, há quem viva com privilégios e direitos assistidos como se fossem especiais e escolhidos de Deus (mente propagada desde a Idade Média para que os reis se mantivessem no poder). Continua o Darci,

Por isso mesmo, o Brasil sempre foi, ainda é, um moinho de gastar gentes. Construímo-nos queimando milhões de índios. Depois, queimamos milhões de negros. Atualmente, estamos queimando, desgastando milhões de mestiços brasileiros, na produção não do que eles consomem, mas do que dá lucro às classes empresariais…

A isso assevera o lendário Sérgio Burque de Holanda em 1920, como se tivesse aqui hoje vivendo o que estamos vivendo, diz ele:

Em país como o nosso, onde em tudo domina a filosofia tupinambá, só se olham como grandes benfeitores os homens que fazem reformas de efeito. Embora para isso seja necessário onerar a nação e pejar seu futuro de incertezas, é essa a maneira mais cômoda para nossos governantes de conquistar popularidade. Bussolados pelo interesse próprio que quase em regra não é o da nação, esses políticos barafustam-se em intentonas egoístas cujo único mote é o lucro próprio. Eis como no Brasil se faz de meros bonifrates de circo, homens representativos.

Isso é Brasil, lugar de muitos, sonhos vários, luta da maioria, mas benefícios de poucos. Nos tornamos, como também diz Sérgio Buarque de Holanda em seu livro Raízes do Brasil, um povo “cordial” um povo “adomingado” que nutre em nós o desejo de justiça e mudanças, mas que, por vezes, nos conformamos como se tudo fosse normal, porque somos adestrados a isso.

Desde a minha infância, quando o povo foi às ruas lutar pela democracia nas “Diretas já” eu ouvia dizer que o Brasil era o país do futuro, o futuro chegou e ainda estamos no passado. Como diz Mia Couto em seu livro Terra Sonâmbula: “Afinal, em meio da vida sempre se faz a inexistente conta: temos mais ontens ou mais amanhãs?”

Que a justiça de Deus se sobreponha entre os mandantes desse país. Se a injustiça predominar, estamos isentos da obrigação de aceitar o que os chefes da nação fazem. Deus não compactua da impunidade e mentira, seja quem for e de que partido for. Deus está acima de ideologias o sistemas políticos.

Que Deus ajude nossa nação.

J.S

 

*Arte Ana Lúcia Mendina

 

Arrancando as tintas

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Arrancando as tintas

A vida passa tão rápido, ja não há tempo para o tempo que já não há. Sinto-me correndo em busca dos preenchimentos das lacunas que meu interior assumiu em minha própria história.

Nos labirintos de minha interioridade, por vezes, me perco na imensidão do vazio que jaz nas profundezas do meu coração que clama dia e noite por voltar à eternidade onde está seu Dono.

Meu espírito vaga por trincheiras desérticas e inóspitas como um animal que corre de seu predador em busca de abrigo e águas tranqüilas. Mas, muitas vezes sou o predador de mim mesmo nos desencontros da minha própria identidade que assume personagens que não sou eu para fugir de mim mesmo.

Na realidade, sou o resultados de bondades e maldades que me circundam que me moldam, me vestem e me escondem de minhas fragilidades para mostrar-me mais forte, quando na realidade, esse vestir-se é o medo de que vejam quem realmente sou.

Por vezes, sinto-me coagido à cada dia reinventar-me para que eu apresente, em público, uma versão mais robusta e com cara de forte, que esconde as sequelas que a vida me deixou.

E isso é a vida, é esse recomeçar, reinventar-se para que os que nos vejam, vejam a melhor versão que podemos mostrar. Isso é ser humano, é ser forte sendo fraco, é ser valente tendo medo.

Mas com isso, se corre um risco, o risco de se perder a essência do que realmente se é, do que realmente há dentro, a obrigação de se ser “forte” nos desumaniza. Nos afasta de nós mesmos, nos apequena.

Preciso arrancar as velhas tintas com que me pintaram, redescobrir sentidos, recuperar purezas, descontaminar-me de estereótipos que ofuscam a essência da minha alma, para que meu “eu” seja eu mesmo…

J.S.

A felicidade que nos resta

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A felicidade que nos resta

A vida é um mistério insondável e assustador. A cada hora que se passa sinto que parte de mim sou eu, e a outra ja não há, – a medida que envelhemos resta-nos apenas o presente, o passado já se foi, o amanhã não nos pertence, cabe-nos somente o agora.

Com isso, temos que assumir riscos, desencantos e desilusões, sem perder a esperança, pois vida não é um o mundo de Alice no país da maravilhas, é preciso saber viver. Temos que nos admitir incompletos e limitados. Já não tenho mais idade de ostentar felicidades obrigatórias aos meus inimigos para auto-afirmar que estou bem. Já não tenho mais tempo para tirania da felicidade, onde todos são felizes “facebookanamente” falando (me permitem o neologismo).

Vejo-me impulsionado à assumir-me como estou e sou, se alegre, alegre, – se triste, triste; se indignado, indignado. Rubem Alves diz que somos como coisas que trazemos nos bolsos, várias coisas, uma para cada fim. Esses bolsos são nossas decepções e realizações, mentiras e verdades, sinceridades e hipocrisias.

Quero, se eu não for feliz em tudo, cultivar a felicidade de pequenas coisas, pequenas conquistas, pequenas alegrias. Já não me sinto coagido a ser um surperman em uma sociedade hedonista de heróis triunfalistas em busca do prazer, que mais parecem ter necessidades de se mostrarem felizes do que verdadeiramente o serem.

A felicidade é silenciosa, quem precisa mostrar-se feliz o tempo todo, no fundo, tem um vazio do tamanho da ausência da felicidade e da sua necessidade de demonstrações. Reservo-me ao direito de estar a cada dia ficando mais velho, mas com a consciência de estar vivendo para mim e não para os outros, com erros e acertos, com forças e fraquezas, mas sempre eu mesmo. Para os outros, sinto-me endividado a prestar ajuda a quem precise; a estender a mão, a perdoar e amar – e isso, sem necessidades de holofotes, traz alegria ao espírito, enobrece a alma e nos aproxima mais da verdadeira felicidade que Cristo propõe.

A felicidade que nos resta, não está no carro novo, na casa nova, no novo emprego, na formatura, – isso é muito bom, mas é possível ter tudo isso e ser triste. A felicidade está em ter tudo isso e não depender disso para ser feliz. Ou não ter nada disdo e ser exemplo de felicidade. Agostinho diz “Se alguém quiser ser feliz, deverá procurar um bem permanente, que não lhe possa ser retirado em algum revés de sorte”. A felicidade não será amanhã se eu lograr meus objetivos, por vezes necessários e por vezes superfluos. A felicidade é agora com que se tem, com que se pode ser; sem máscaras, sem disfarces, simplesmente assumir-se como que realmente se é.

Quero uma vida que seja simples, mas não simplista, que seja comum, mas não monótona, que seja honesta mas não perfeira; a perfeição nos tira a humanidade. Aliás honestidade está em extinção como alguém disse “a corrupção é um bom negócio que não me chamaram para participar” aí, por vezes esbravejamos sinicamente, mas no fundo somos corruptos com coisas mínimas. E cada um sabe onde está seu calcanhar de Aquilles.

Quero uma felicidade que me livre das cobranças da minha interna vaidade de mostrar o que não sou, com compromisso mais com o outro do que comigo mesmo. Quero uma felicidade mansa, na quietude do meu ser, com prazeres bobos, comer uma picanha, ler um bom livro, ver um bom filme, sentir Deus numa canção, dislumbrar-me ao ver suas maravilhas, ser sensível a sua voz, comungar com os irmãos e amigos. Nas palavras de Salomão, o Machado de Assis da Bíblia “Eis aqui o que eu vi, uma boa e bela coisa: comer e beber, e gozar cada um do bem de todo o seu trabalho, em que trabalhou debaixo do sol, todos os dias de vida que Deus lhe deu, porque esta é a sua porção.

Às vezes (por forca da situação) desperdiçamos tempo demais reclamando da vida, da infelicidade, dos infortúnios; quando é assim, de uma passada nos manicômios ou em hospitais com doentes terminais, como aidéticos e cancerosos. E depois, vá até a sua janela, – olhe para fora, e perceberá que haverá coisas que sempre olhou, mas não se deu conta de como são valiosas: as crianças brindando na rua, o carteiro, o vendedor, as pessoas conversando e rindo, – a vida se mostrará mais vívida, mais cândida e mais bonita. Como na canção de Gonzaguinha “Viver e não ter a vergonha de ser feliz, cantar a beleza de ser um eterno aprendiz. Eu sei que a vida devia ser bem melhor e será; mas isso não impede que eu repita: é bonita, é bonita, e é bonita

A felicidade é ser feliz com que nos resta, – com a vida que Deus nos deu, e com o que nos deu na vida ou com o que não nos deu. A felicidade é ver o mar num pingo d’água é ver o mundo numa semente de girassol. E como são lindos os girassóis que enfeitam os campos, dando à vida mais beleza a deixando mais cheia graça. Nas palavras de Jesus “Olhai as flores do campo; elas não fiam, nem tecem. Eu, todavia, vos asseguro que nem mesmo Salomão, em todo o seu esplendor, pôde se vestir como uma delas.

A felicidade é viver o momento como se o fulgaz fosse infinito, sem sofrer pelo porvir, porque o dia de manhã pertence a Deus; “Portanto, vos afirmo: não andeis preocupados com a vossa própria vida, quanto ao que haveis de comer ou beber; nem pelo vosso corpo, quanto ao que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento, e o corpo mais do que as roupas?”

A felicidade que nos resta, é viver sem a preocupação de ser feliz, se a felicidade trouxer preocupações, já não é tão feliz assim. Viva. Seja feliz…

J.S.

 

O Belo, dádiva de Deus

 

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O Belo, dádiva de Deus

Sinto que há coisas em mim que não são minhas, parece que sinto saudades de coisas que ainda não vi. Há coisas que tenho que não são de mim mesmo, mas que Deus as colocou em mim. Às vezes me pergunto, por que me emociono diante do Belo? De onde vem essa noção de que aquilo que é belo me satisfaz a alma? Quando olhamos os animais e os admiramos em sua inteligência em seu instinto. Quando admiramos uma pintura por horas imaginando o que o artista pensava ao pintar a tela, como a famosa “Gioconda” ou Monalisa, de Leonardo da Vinci. De onde emana esses sentimentos de nos deixar extasiados diante da beleza? Por que o Belo nos atrai? É como sabemos que o Belo é Belo?

Platão, em sua filosofia, nos diz algo interessante. Segundo ele, tudo que é belo faz parte do insensível, o que é conhecido como “teoria das formas”, ou seja, a beleza do mundo sensível é a cópia do mundo insensível ou o “mundo das ideias”, – o ato da “contemplação” diante da beleza é apenas lembrar de mundo Belo, Bom e Verdadeiro que nossas almas já conhecem. Conhecer seria simplesmente recordar. O Apóstolo Paulo parece concordar com isso, “hoje vemos como que por espelho de maneira ofuscada mas logo veremos e conheceremos como também somos conhecidos” ele diz também do mundo  “incorruptível“e perfeito, em contraposição a este mundo sensível  – termo usado também por Platão.

Quantas vezes me emocionei diante da luz da aurora e da beleza do crepúsculo. Parece que já conhecemos o Belo em um outro mundo em um outro tempo e (como propõe Platão), quando voltamos a estar diante dele nos emocionamos.

Quando estamos diante de uma torrente de águas, se nos dá a impressão de algo jorrando de dentro de nós, as águas correndo sem parar que nos dão um sentido de eternidade, e o efêmero já não há, mas sim, um sentimento oceânico como diz Freud. É como se nosso espírito bailasse sobre a imensidão das águas e o pulsar da brisa que nos assopra o rosto nos arranca fisionomias juvenis.

As flores de um jardim parecem que são partes de nós, elas nos trazem um sentimento de liberdade, o ar que exala delas parece perfumar o interior e nos limpa as entranhas. A Natureza nos parece misteriosa, um mistério que nos assombra e nos consome de curiosidades e perplexidades. Diante da natureza nos deslumbramos em sentimentos de pequenez, fragilidade e finitude.

Os sons que emanam das árvores ao pulsar dos ventos e ao cantar dos pássaros que – em sintonia com eco do vazio -, nos enche o coração das mais belas melodias. Mas essa beleza só vê e se emociona estando diante delas, pessoas que têm beleza dentro de si, então a beleza aflora pelos olhos, se a interioridade for boa, os olhos também o são “os olhos são a candeia do corpo” diz o Mestre Jesus.

A beleza é algo que está dentro de nós, e, quando a encontramos fora, há uma conexão com as duas belezas, pessoas que não possuem beleza inteiro dificilmente se emociona diante do belo. Johann Wolfgang von Goethe, diz “Quem tem bastante no seu interior, pouco precisa de fora.” – A experiência do belo pode-se  encontrar no banal, como diz Rubem Alves ver “o céu numa flor de silvestre” ou o “mundo num grão de areia” em coisas que estão diante de nós, e passam desapercebidas. Talvez quando é assim, nosso interior está em preto e branco e já não enxergamos as cores da vida, já não temos tempo para o Belo, o pragmático tomou o lugar do imagético e, aí, só se vê “beleza” no que se possui ou no que se deixou ser possuído. Como diz Immanuel Kant “Belo, é tudo quanto agrada desinteressadamente

O Belo não tem preço, se tiver, logo será substituído por outro mais caro e novo. O Belo é tudo quanto nos gera sentimentos de eternidade efêmeras. O Belo é tudo quanto nos deixa em encanto sem saber porquê, simplesmente contemplamos e temos prazer.

O Belo é tudo quanto consegue nos deixar estagnados e admirados por horas sem perceber o tempo passar. Diante do Belo, o tempo é volátil. O Belo é tudo que a beleza produz em nós.

Aristóteles diz que “A beleza é dom de Deus”. Participamos do Belo nEle e por Ele. O Apóstolo João diz que “É justo amar o belo e desejá-lo; mas Deus deseja que primeiro amemos e busquemos a beleza do alto, que é imperecível.” A Beleza que incendeia a alma é apenas reflexo da formosura de Deus. O Belo e toda natureza que expressa essa beleza é a arte do Grande Artista. O Belo faz parte de Deus, mas não é Deus; Deus está para além do Belo. O salmista diz “Os céus proclamas a sua glória e o firmamento anuncia as obras de suas mãos.” O Belo é o chamar da voz de Deus e a resposta de nossas almas que gritam incessantemente como uma noiva que anseia ser desposada: “vem depressa amado meu, tenho saudade de ti…”

J.S.